CAPÍTULO 19

Ao final da tarde do dia seguinte, Sofia estava guardando parte da louça utilizada na festa da noite anterior, quando a governanta entrou esbaforida na cozinha, cochichando ao seu ouvido: “O rapaz da festa de ontem está aí na sala com a patroa.” O coração de Sofia quase saiu pela boca, ao saber que Sócrates estava na casa. Não parara de pensar nele um só instante e mal dormira à noite lembrando-se do que sentira e do que conversaram. Sofia correu em direção à sala e escondeu-se atrás de uma coluna, para ouvir o que sua tutora e Sócrates estavam conversando.
— ... mas ele disse que era neta dele! — foi o final da frase que Sofia ouviu Sócrates dizer.
A tutora, procurando manter uma simpatia que talvez revertesse a situação criada na festa, falou ao rapaz:
— Meu jovem, o meu sogro, infelizmente, está muito idoso e já não está no domínio total de suas faculdades mentais. Como nós o amamos muito e cultivamos os mais nobres valores humanos, que eu sempre procurei passar paras as minhas encantadoras filhas, que você teve a oportunidade de conhecer ontem, mas vocês infelizmente foram separados por aquela jovem sem eira nem beira que apareceu Deus sabe de onde... nós o amamos muito e, na sua situação mental, precisaria ser internado num asilo, mas minhas filhas, as únicas netas que ele tem, são terminantemente contra isso. Meninas maravilhosas, de um coração de ouro, que fariam qualquer homem feliz. Esqueça essa jovem que ninguém conhece e que você nem sabe dizer onde mora. Espere que vou chamar as minhas filhas. Conversem bastante e você descobrirá duas jóias raras.
— Não, senhora, por favor! — apressou-se em dizer o rapaz, lembrando-se das futilidades que elas lhe haviam dito enquanto estavam juntos. Eu não vim procurar suas filhas, vim procurar Sofia.
O rosto da senhora endureceu-se como pedra.
— Sofia?! Que Sofia?! Do que você está falando?!
— Sofia é o nome da jovem que eu conheci ontem na festa. Por isso vim até aqui, pois a senhora deve ter o endereço dela, afinal foi a senhora quem convidou todas as pessoas que estavam presentes.
— Não convidei nenhum Sofia. Não conheço nenhuma Sofia, a não ser... A mulher parou de falar. Não, não era possível! A empregadinha nunca conquistaria um jovem tão rico, culto e viajado como Sócrates. Além do fato de a moça da noite anterior ser lindíssima.
— A não ser quem?! — quis saber o rapaz.
— Ninguém... ninguém... talvez essa jovem que você conheceu nem exista, tenha sido um sonho que você teve durante a noite. As únicas jovens encantadoras que você conheceu foram as minhas filhas. Se quiser...
— Não, por favor! — mais uma vez disse o rapaz, cortando pela raiz a infeliz idéia da mulher —. Eu estou procurando Sofia e ela não é um sonho. Um sonho não deixa um par de sapatos como este que ela esqueceu na varanda de sua casa.
Sofia, ouvindo tudo isso, estava desesperada, pois não sabia o que fazer. Como podia apresentar-se a Sócrates, sendo empregada e vestida como empregada. Uma mão tocou-lhe o ombro nesse instante, dando-lhe um susto imenso que a fez estremecer toda. Atrás de Sofia estava a governanta, com o vestido negro da noite anterior em suas mãos.
— Entre ali no lavabo e ponha essa roupa rapidamente — disse-lhe a governanta.
Num impulso, Sofia entrou no lavabo, retirou seu uniforme e vestiu o traje da festa. Nem percebeu que estava ainda com a touca na cabeça. Saiu do lavabo e encontrou a tutora ainda tentando convencer Sócrates a conhecer mais a fundo suas filhas. Sofia chamou pela tutora:
— Senhora?
A mulher voltou-se indignada por reconhecer a voz de Sofia e ser interrompida por ela.
— O que você deseja, menina impertinente?! — disse, voltando-se para Sofia e estacando ao vê-la com o vestido negro. Seus olhos arregalaram-se de espanto.
A governanta aproximou-se por trás de Sofia, tirou-lhe a touca e ajeitou-lhe os cabelos. Sócrates abriu um imenso sorriso e caminhou apressadamente em direção a Sofia.
— Sofia! — disse-lhe, tomando-a nos braços.
A tutora, não acreditando no que estava acontecendo e sentindo-se dentro de um pesadelo, soltou um grito de horror, que se espalhou por toda a casa:
— NÃO!!!
O grito atraiu os empregados, as duas filhas e Vovô. Todos apareceram assustados, querendo saber o que havia acontecido. Vovô foi o primeiro a compreender tudo, ao ver Sócrates abaixado, colocando os sapatos nos pés de Sofia. A tutora continuava a gritar.
— Não pode ser!!! Isso é ridículo! Um absurdo! Essa menina é minha empregada... não tem eira nem beira... é uma ignorante que nem chega aos pés das minhas filhas...
Olhando Sofia nos olhos, Sócrates disse:
— É a mulher mais encantadora e inteligente que eu jamais conheci.
Vovô aproximou-se:
— E não é verdade, minha cara nora, que ela não tem eira nem beira. Afinal, ela é a herdeira de metade dos meus bens. Três baques sucessivos foram ouvidos. Eram a tutora de Sofia e suas duas filhas que desmaiavam.