CAPÍTULO 10

Ah, Lygia Bojunga Nunes! Uma experiência semelhante à que teve com Lobato, Sofia teve com Lygia. Sofia sentiu que a obra dessa autora gaúcha, que vive no Rio de Janeiro e tem um pouco de seu coração em Londres, era algo vivo. Um dia, lendo uma passagem da Bíblia sobre Jesus, encontrou a seguinte frase: “E Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça” [Lucas 2,52]. Ao ler a obra de Lygia Bojunga, pareceu-lhe que era um ser vivo crescendo em idade, em sabedoria e em encanto. Começou como literatura infantil para crianças pequenas e foi-se desenvolvendo como o faz uma criança, passando à adolescência e, depois, à idade adulta.
Sofia leu, em ordem cronológica, todos os livros que Lygia Bojunga Nunes havia publicado. Se, para sua idade, sentiu que os primeiros livros eram um pouco infantis, já os últimos eram para um adulto, para uma pessoa mais madura do que Sofia era naquele momento; mas a linguagem de Lygia era tão fluente, que Sofia não teve qualquer dificuldade para lê-la.
Seu livro preferido de Lygia Bojunga foi o de contos intitulado Tchau, identificando-se com o problema de diferença de classes sociais presente no conto O Bife e a Pipoca.
Quando soube que Lygia Bojunga Nunes havia criado uma “Casa” onde suas personagens e seus livros todos pudessem morar, Sofia pensou consigo mesma que a autora até poderia juntar tudo nessa casa, mas que não o faria em tempo integral e nem por muito tempo, porque cada vez que alguém lesse um daqueles livros, as personagens sairiam escondido de sua casa e passariam a morar com quem as estivesse lendo; e quando Lygia morresse, seus livros pertenceriam ao mundo e não seriam eles que habitariam em algum lugar, mas seus leitores é que morariam neles, como havia acontecido com Monteiro Lobato. Era o destino das grandes obras!