CAPÍTULO 11

Um dia, Vovô vendo a jovem terminando mais uma leitura, aproximou-se e falou-lhe:
— Acho que você já leu muita coisa até hoje, não, minha querida?
O coração de Sofia começou a bater aceleradamente, pois ela pensou que, após aqueles poucos anos, Vovô havia se cansado de sua presença constante na Biblioteca e a dispensaria dali.
— Você está bem, Sofia?! — perguntou Vovô, preocupado com a aparência da adolescente e sua respiração ofegante.
A jovenzinha só conseguiu menear afirmativamente a cabeça. Vovô então lhe disse:
— Não tenho mais nenhuma dúvida de que você é uma “leitora” — e Vovô frisou bem essa última palavra, dando-lhe um sentido mais profundo que o de apenas compreender o que estava escrito em algum lugar. Até agora, você só leu livros em prosa, e há ainda muito mais para ler. Estava pensando se você não gostaria de começar a ler alguns livros de poesia! Quer tentar?
Um suspiro de alívio escapou da boca de Sofia e um sorriso estampou-se em seu rosto todo, iluminando-a. Mas continuou sem palavras, balançando sua cabeça para cima e para baixo, em sinal de aceitação.
— Para começar, leia estes aqui! — disse Vovô, entregando-lhe três livros: A Arca de Noé, de Vinícius de Morais; Ou Isto ou Aquilo, de Cecília Meireles; e um mais grosso, Poesia Brasileira para a Infância, uma coletânea de poesias em língua portuguesa.
Que coisa maravilhosa era aquela combinação de idéias, palavras e sons contidos na poesia! Naturalmente, Sofia já havia lido ou ouvido alguns poemas na escola ou em outros lugares, mas nunca havia atentado para a riqueza que havia neles.
Como alguém podia “brincar” assim com as palavras, combinando-as de forma tão perfeita e musical, extraindo de cada uma delas o máximo sentido que elas podiam dar ou até mesmo dando-lhes um novo sentido?!
Sofia descobriu que uma história também podia ser contada em forma poética e não apenas em prosa. E tocou-lhe particularmente a história do pintinho cego, que o poeta Olegário Mariano contou em versos. Quando o pintinho morre, Sofia chorou junto com a personagem-narradora.
Essa experiência e todas as que vinha tendo desde que começara a ler levaram Sofia a conversar com Vovô:
— Sabe, Vovô, eu tenho sentido algo que ainda não sei explicar direito. Quando a mamãe morreu, eu senti uma grande tristeza e ainda sinto. A morte dela faz parte da minha vida e eu vivi aquela perda. Quando eu leio alguma coisa, sinto as mais diversas emoções; não é algo que eu esteja vivendo na minha vida, mas sinto que essas emoções entram na minha vida e acabam fazendo parte das minhas lembranças, como se eu tivesse vivido tudo aquilo que eu li. O senhor me entende? Não sei como explicar isso.
Vovô tirou os óculos, baixou o livro que tinha em mãos e sorriu orgulhosamente para Sofia.
— Claro que eu entendo, meu bem! Você está descobrindo que as experiências de vida podem ser adquiridas de duas maneiras: você pode viver de fato algo, de forma concreta, como foi o fato de você, Sofia, perder a sua mãe; ou você pode vivenciar algo através da experiência de outras pessoas, através da narração dessas experiências, seja de que forma isso aconteça — alguém contando, um filme, uma reportagem, um livro... A literatura faz com que você viva muito mais a sua vida e também viva outras vidas, tornando suas várias experiências que normalmente você jamais teria condições de ter. Sentada nesta biblioteca, você viaja para lugares com os quais jamais sonhou, a tempos passados e futuros; tem contato com pessoas, povos e culturas que, provavelmente, você jamais poderá conhecer; sente uma infinidade de emoções que a sua vida nesta casa não lhe permitiria sentir.
Meditando aquelas palavras de Vovô, Sofia, em silêncio, agradeceu a Deus por ter criado o ser humano com essa capacidade de criar e recriar a vida através da arte, de forma que uma pessoa, em qualquer tempo ou lugar, pudesse vivenciar — tinha sido essa a palavra usada por Vovô, não? — as experiências de toda a humanidade.