À medida que Sofia crescia física e intelectualmente, Vovô ia-lhe sugerindo leituras adequadas à sua maturidade. “Tudo a seu tempo certo, para que você possa aproveitar ao máximo a sua leitura!”, dizia-lhe Vovô, quando Sofia pedia-lhe para ler algum dos livros que o velho senhor acabara de ler.
Após a leitura desse panorama da literatura infanto-juvenil e preparando Sofia para os grandes clássicos da literatura mundial — da Antiguidade aos nossos dias, em prosa ou verso, teatro ou romance —, Vovô selecionou as principais obras da literatura brasileira para que a jovem as lesse.
Ele tinha elaborado uma relação que chamara de “Biblioteca Básica da Literatura Brasileira”, em ordem cronológica, que iniciava com a Carta de Pero Vaz de Caminha, contando ao rei de Portugal sobre o descobrimento do Brasil. A leitura dessa “biblioteca” levou muito tempo, acompanhando Sofia em sua entrada na idade adulta. Sofia já estava com 18 anos quando descobriu um escritor que tinha a capacidade de contar histórias semelhantes, mas sempre com um ar de novidade, porque suas narrativas exploravam o interior do ser humano: Machado de Assis.
Naturalmente, já ouvira falar muito neste que é considerado um dos maiores — se não o maior — escritor brasileiro e um dos maiores do mundo. A jovem tinha receio de lê-lo, pois achava que sua leitura seria extremamente difícil, como o fora a leitura dos textos do Pe. Antônio Vieira. No entanto, surpreendeu-se com a clareza das frases de Machado de Assis. E com o seu vocabulário, então! Aquele homem que produzira sua obra no final do século XIX e início do século XX usava de um vocabulário tão límpido, que Sofia nem precisava recorrer a um dicionário para compreender alguma palavra desconhecida.
A comparação entre a vida de Machado de Assis e a história do patinho feio, de Andersen, não pode ser evitada na mente de Sofia. Machado de Assis nascera pobre, mulato, gago e epiléptico; ficara órfão de pai e mãe muito cedo. Cresceu reservado e tímido. E conquistou, ainda em vida, o reconhecimento do Brasil como um de seus grandes intelectuais. “Outro autor para se viver em sua obra!” — pensara Sofia consigo mesma, em um dos seus momentos de digressão, durante a leitura do escritor carioca.