CAPÍTULO 8

Antes de Sofia começar a ler os livros de Monteiro Lobato, Vovô contou-lhe um pouco da vida desse grande escritor brasileiro, considerado o Pai da Literatura Infantil brasileira. Ele foi tão importante para a literatura infanto-juvenil em nosso país, que na data de seu nascimento — 18 de abril — comemora-se no Brasil o Dia Nacional da Literatura Infantil.
De tudo o que Vovô falou a Sofia sobre Lobato, uma frase foi emergindo de sua memória à medida que lia as histórias de Narizinho, Emília, Pedrinho, Visconde, D. Benta, Tia Nastácia e das outras personagens: “Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. Não ler e jogar fora; sim morar, como morei no Robinson e n’Os Filhos do Capitão Grant”. Essa frase fazia parte de uma carta que o escritor havia mandado para seu amigo de faculdade, Godofredo Rangel, quando já era um escritor consagrado de contos para adultos, não tendo ainda publicado nenhum livro infantil ou juvenil.
Literalmente, Sofia passou a morar nos livros de Monteiro Lobato, a viver todas as suas tardes e até domingos inteiros. Ah, como se divertiu com as aventuras no Sítio do Picapau Amarelo. Não conteve uma gostosa gargalhada lendo Reinações de Narizinho, quando Miss Sardine, uma sardinha que estava na comitiva real do Príncipe Escamado, mergulha na frigideira cheia de óleo fervente na cozinha de Tia Nastácia e morre fritinha da silva. Tia Nastácia chora muito diante daquela tragédia, mas, ao sentir o aroma de peixe frito, pára de chorar, começa a tirar pedacinhos da sardinha e acaba por comê-la todinha, lambendo os beiços de satisfação. Apesar de trágico, era muitíssimo cômico! E o vestido de casamento de Narizinho?! Que encanto! Nunca havia lido descrição mais linda de um vestido, nem na obra de Hans Christian Andersen.
Os livros de Monteiro Lobato aconteceram na vida de Sofia numa fase em que ia deixando de ser menina e se transformava em mulher. Sofia iniciou a leitura da obra de Lobato como menina e a terminou como adolescente; e percebeu que os livros de Monteiro Lobato faziam esse mesmo percurso — iniciava-se como literatura infantil, com as Reinações de Narizinho e terminava com literatura juvenil, em obras como Os Doze Trabalhos de Hércules. Que riqueza de cultura havia dentro daqueles livros!
Com Lobato, Sofia aprendeu História, Geografia, Matemática, Língua Portuguesa, Ciências diversas, Folclore... Quanto interesse despertou em Sofia a obra O Minotauro! Passou a sonhar com a Grécia antiga e começou a sonhar com algo que nunca sonhara, algo tão distante de sua vida: viajar! Viajar e conhecer o mundo todo, todas as culturas, todos os povos... Que maravilha seria conhecer lugares como Atenas e suas ruínas históricas, visitar os museus no mundo, nos quais o passado grandioso de civilizações passadas estava de alguma forma preservado!
Com Lobato, Sofia morou, viveu, comeu, respirou, sentiu, dormiu dentro dos livros. Havia ido mais longe do que talvez o próprio Monteiro Lobato houvesse imaginado.