Finda a leitura dos livros estrangeiros, Vovô selecionou uma série de obras de autores brasileiros, dirigidas ao público infantil e juvenil. Os critérios para a escolha foram a importância das obras no momento em que foram publicadas e a sua qualidade enquanto obra de arte. Para que Sofia sentisse o desenvolvimento da literatura infanto-juvenil no Brasil, Vovô estabeleceu uma ordem cronológica para a leitura, ou seja, primeiro ela leria os livros mais antigos e depois os mais recentes.
Primeiramente, Sofia leu os Contos Infantis da Júlia Lopes de Almeida e da Adelina Lopes Vieira. A seguir, alguns livros de Figueiredo Pimentel: Contos da Carochinha, Contos de Fadas, Histórias da Avozinha e Histórias da Baratinha.
Sofia, que já conhecia a maioria das histórias recontadas nestes livros, estranhou algumas alterações que Pimentel havia feito. Comentando essa estranheza com o Vovô, a menina concluiu seu raciocínio dessa maneira:
— Até parece que esse Figueiredo Pimentel pensava que toda criança é boba e não entende nada de nada da vida. Pois ele estava redondamente enganado. Se reescrevesse as histórias como elas são, descobriria que as crianças entenderiam tudo perfeitamente e gostariam mais dos seus livros. Na época, as pessoas podiam dar nota 10 para o trabalho dele, mas hoje eu acho que não passaria de 5.
Ao ouvir tal comentário, Vovô olhou para Sofia com espanto e satisfação, pois percebeu que a leitura estava incentivando o raciocínio da menina e criando uma visão crítica do mundo. Ele não lhe disse nada, mas sorriu de tal maneira, que Sofia sentiu em sua expressão a aprovação das suas idéias a respeito dos livros de Figueiredo Pimentel. E esta simples aprovação expressa no olhar do Vovô serviu como incentivo para que Sofia passasse a dizer quais suas expressões sobre os livros que ia lendo.
As próximas leituras foram de dois livros do Olavo Bilac, Contos Pátrios, escritos em parceria com o Coelho Neto, e Através do Brasil, escrito em conjunto com o Manuel Bonfim.
Já da leitura de Saudade, do Tales de Andrade, a menina gostou muito, talvez por possuir uma natureza um tanto melancólica. Ao final do livro, quando Mário parte para a Escola de Agronomia, Sofia começou a chorar.
— Como a separação é triste! — disse a Vovô, enxugando algumas lágrimas. Mesmo quando é para o bem de uma pessoa.
Depois foi a vez de ler Cazuza, de Viriato Correia, e, então, Sofia chegou a uma obra que a encantou, na qual viveu durante meses e a qual releu inúmeras vezes: a de Monteiro Lobato.