Como a biblioteca do Vovô era muito grande e possuía os mais variados livros de todas as épocas, para todos os gostos, o próprio Vovô foi quem os escolheu para Sofia, ficando acertado entre eles que, se ela não gostasse de algum, não precisaria continuar a lê-lo. O importante era ela fazer do hábito da leitura um momento de prazer. Mas, como o velho tinha a experiência de anos e anos com os livros, soube escolhê-los muito bem, de forma que jamais Sofia desgostou de uma recomendação sequer.
Vovô resolveu que Sofia leria primeiro os clássicos da literatura infantil, escritos ou adaptados para as crianças. E começou com as fábulas orientais. Sofia leu o Pantcha-Tantra, o Hitopadexa, o Calila e Dimna e As Mil e Uma Noites. Depois, as fábulas do grego Esopo e do latino Fedro, terminando nas do francês La Fontaine.
Com as Fábulas, Sofia aprendeu a conhecer o que se costuma chamar a “natureza humana”, ou seja, como o ser humano age, e percebeu que não mudou muita coisa desde a Antiguidade até agora, sendo que as fábulas resumem-se basicamente em duas lições: na sociedade, o poder pode mais que mil razões, seja este poder puramente físico ou econômico, político, religioso ou outro qualquer; e contra o poder só existe a esperteza, não a esperteza fruto da malandragem, mas a esperteza fruto da inteligência, do raciocínio. Nem sempre a esperteza vence a força, mas é a única que pode tentar fazê-lo.
Foi através das fábulas que Sofia, pela primeira vez, sentiu a importância da cultura para tentar conseguir um dia mudar de vida. Ali naquela casa, onde ela era fraca em relação ao poder econômico e social da família, ela seria sempre oprimida, menos pelo Vovô. A cultura a tornaria inteligente e isto a libertaria um dia. E ela só tinha acesso à cultura através dos livros que, segundo o Vovô, resumiam toda a cultura humana.
Das fábulas, Sofia passou para os Contos ou Histórias dos Tempos Idos, de Charles Perrault. Foi quando leu pela primeira vez as histórias de fadas que ela já conhecia de ouvir contar: A Chapeuzinho Vermelho; O Pequeno Polegar; A Bela Adormecida do Bosque; Cinderela (história que ela achava tão parecida com a sua e que a fazia sonhar para si um final tão feliz quanto o da Gata Borralheira); O Gato de Botas; Riquet, o Topetudo; Pele de Asno; As Fadas; e o Barba Azul.
A seguir, leu os Contos de Grimm que, além de recontar as histórias do livro de Perrault, contava dezenas de outras, como Rapunzel, Branca de Neve, João e Maria, O Alfaiatezinho Valente, o Rei Sapo, e mais e mais.
Leu também os contos do escritor dinamarquês que é considerado o Pai da Literatura Infantil, Hans Christian Andersen e, pela primeira vez em suas leituras, Sofia emocionou-se como tantas vira o Vovô fazer. Ela já havia rido ou ficado horrorizada, como quando leu a história do terrível Barba-Azul; mas com Andersen ela chorou, não uma nem duas vezes, mas várias, tantas que perdeu a conta. Como podia um homem ser capaz de escrever histórias tão belas e ao mesmo tempo tão tristes, que pudessem fazer uma pessoa chorar?! Tinha de ser um gênio da literatura! E não era para menos que o chamavam de Pai da Literatura Infantil. Com histórias como A Pequena Sereia, A Roupa Nova do Imperador, O Soldadinho de Chumbo, O Rouxinol, O Patinho Feio (seria ela também um Patinho Feio que um dia se transformaria em cisne?, perguntou-se Sofia), Os Sapatos Vermelhos, A Menina dos Fósforos, o Boneco de Neve, entre os mais ou menos 150 contos que o escritor dinamarquês escreveu, Andersen tornou-se o autor preferido por Sofia.
Seguindo o conselho de Vovô, que lhe repetia sempre a recomendação de fazer primeiro a leitura dos “livros clássicos” para depois ler os contemporâneos, isto é, aqueles escritos pelos autores de nossa época, Sofia leu vários livros da Condessa de Ségur; além de Pinóquio, do italiano Carlo Collodi; muito Júlio Verne, das aventuras à ficção científica; as duas Alice, no país das maravilhas e do outro lado do espelho, de Lewis Carroll, um escritor inglês que escreveu as histórias para uma menina de verdade chamada Alice Liddel, que ele conhecia; e Peter Pan, do também inglês James Barrie; a história do maior mentiroso do mundo, o Barão de Münchausen, de G. A. Burger.
E leu ainda toda a coleção chamada Clássicos da Literatura Juvenil, com, por exemplo, A Ilha do Tesouro, de Robert L. Stevenson; O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas; As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain; David Copperfield, de Charles Dickens; Beleza Negra, de Anna Sewell; Ben-Hur, de Lewis Wallace; Robin Hood, a lenda inglesa de um nobre injustiçado que se torna marginal e, com seu bando, rouba dos ricos para dar aos pobres; Sem Família, de Hector Malot; Mulherzinhas, de Louisa May Alcott (esta se tornou uma das autoras preferidas de Sofia, que leu outros livros com a história de Jo e sua família); O Pequeno Lord, de Francês Hodgson Burnett; As Viagens de Gulliver,de Jonathan Swift; Robinson Crusoé, de Daniel Dafoe; num total de 50 volumes.
Para encerrar os livros clássicos estrangeiros apropriados à idade de Sofia, Vovô reservou para a menina quatro livros que, segundo ele, ensinavam ótimas lições de vida: O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry; O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon; e, finalmente, da americana Eleanor H. Porter, Pollyana e Pollyana Moça, livros cheios de esperança, de boa vontade e de entusiasmo, coisas raras em nosso tempo tão dominado pelo egoísmo e pela desesperança. Estas histórias mostraram a Sofia o ser humano — como era de fato, como deveria ser e como poderia ser. O ser humano poderia ser melhor se assim o quisesse. Era uma questão de escolha, de utilizar o livre arbítrio que o homem, único animal racional, pensante, tem. Estas leituras deram a Sofia condições de fazer sua escolha e ela escolheu tentar tornar o mundo melhor para si e também para todos os que pudesse atingir com sua ação.