Enquanto caminhavam pela sala, entre os convidados, Vovô ia-os cumprimentando com um leve aceno com a cabeça, sorrindo ao ver em seus rostos a expressão à vista da bela Sofia. As jovens solteiras fecharam seus rostos, permanecendo sisudas e emburradas por haver alguém entre elas que realmente chamava a atenção. À passagem do casal, bocas aproximavam-se de ouvidos e um burburinho de comentários cochichados ia dominando o ar. Afinal, quem era aquela jovem acompanhando o dono da casa?!
A tutora de Sofia estava a um canto, de costas para a direção de onde Vovô e Sofia vinham. Percebendo a expressão no rosto das pessoas com as quais conversava, e para onde olhavam, virou-se, ainda sorrindo e seu sorriso sumiu imediatamente ao ver seu sogro com aquela jovem maravilhosa, mas que ela não reconhecera.
Nesse instante, o jovem Sócrates apareceu na sala de braços dados com as duas irmãs. Estas sorriam envaidecidas por estarem ao lado do homenageado e este, coitado, aparentava tédio e resignação. Ao ver Sofia, estacou, desvencilhou-se das irmãs com um pedido de desculpas e aproximou-se da jovem e de Vovô. Parando em frente a eles, percebeu que não tinha o que dizer, pois era convidado e não os conhecia. Vovô rompeu o silêncio, apresentou-se como amigo do avô do rapaz e apresentou-lhe a sua neta.
— Pensei ter entendido pela sua nora que havia apenas duas filhas — disse o rapaz.
— Da parte dela, sim. Mas esta é a minha neta preferida: Sofia.
O rapaz tomou a mão de Sofia, beijou-a delicadamente, sem tirar os olhos de seus olhos.
— Sofia, acredite que estou verdadeiramente encantado em conhecê-la. Muito prazer! Sócrates.
Sofia sorriu ao mesmo tempo encabulada e orgulhosa. Só lembrou de dizer:
— Sócrates...! Como o filósofo grego!
Um imenso sorriso dominou o rosto de Sócrates. Finalmente alguém sabia a verdadeira origem de seu nome. Vovô, percebendo a empatia entre os dois, desculpou-se e afastou-se, deixando-os a sós e retornando à biblioteca.
Sócrates e Sofia não se largaram mais durante o resto da noite. Por mais que tentasse, o jovem não deu atenção a mais nenhuma jovem nem aceitou nenhuma dança, a não ser com Sofia. Invejas, fofocas, lágrimas de decepção e de raiva brotaram em diversos olhos, sentimentos negativos em vários corações. Ao ver suas filhas chorando a um canto, a tutora de Sofia indignou-se com o desrespeito desse rapaz mal educado que desprezara tão encantadoras jovens, dando atenção apenas àquela sujeitinha que ninguém sabia quem era e de onde vinha. Arrependeu-se de haver oferecido aquela festa, na qual investira tanto em favor das filhas. Mas o velho ia ver com ela. Com certeza ele estava por trás de tudo aquilo. Não fora ele quem a trouxera para a festa?!
Alheios ao que acontecia, Sofia e Sócrates conversavam sobre tudo, mas, incrivelmente, quase não falavam sobre si mesmos. Tantas coisas a comentarem, livros a discutirem, viagens e locais extraordinários pelos quais passara e que Sofia conhecia a partir de suas leituras e sobre os quais perguntava detalhes como se já tivesse estado lá. Dançavam e conversavam. Na sala, conversavam. Na varanda, vendo a lua e as estrelas, e refrescando-se com suaves brisas da noite, conversavam. Quanta coisa em comum eles pareciam ter. A mesma cultura, os mesmos gostos, sonhos semelhantes... Sentiam que haviam sido feitos um para o outro.
Sofia, que não estava acostumada com sapatos de salto alto, estava começando a sentir dor nos pés. Sócrates, percebendo o incômodo, abaixou-se e tirou os sapatos de Sofia, deixando-a mais à vontade ali na varanda.
Quase meia-noite, a governanta aproximou-se de Sofia e estacou sem fôlego ao ver a transformação da jovem. Chegando ao seu ouvido, disse-lhe que a patroa estava enraivecida e procurava por ela em toda parte, prometendo castigá-la. Sofia desesperou-se, desculpou-se rapidamente com Sócrates e saiu correndo para dentro de casa.
O rapaz tentou ir atrás, mas a governanta o impediu entre lágrimas, dizendo que era melhor assim.
— Mas ela nem me deu o número do telefone dela ou o e-mail. Onde posso encontrá-la?
Disse isso olhando na direção para onde Sofia havia ido. Mas ao voltar-se para a senhora que a chamara, ela já não estava mais ali.