O que mais incomodava Sofia não era a quantidade de serviço que tinha a fazer; nem o pouco tempo que tinha para estudar, já que trabalhava o dia todo e ia à escola de noite; nem o desprezo com que continuava a ser tratada pelos donos da casa, apesar de não ser uma empregada; não era saber-se explorada além dos limites — nem se dirá humanos — humanitários. O que mais a incomodava era a saudade da mãe. Era sue único parente conhecido e que poderia livrá-la de sua atual condição. Mas, não havendo solução no momento, tinha que aceitar o que lhe fora imposto e aguardar a maioridade para poder sair dali, livre, para sempre.
O serviço que a tutora mais impunha a Sofia era a limpeza das janelas. Diariamente elas tinham de ser limpas, por dentro e por fora; por isso, parecia sempre que nem vidro havia, já que não se via nenhuma marca ou sujeira, a não ser as que as duas irmãs faziam propositadamente para dar mais serviço a Sofia e que, muitas vezes, resultavam em algum castigo. O mínimo que se podia esperar de uma órfã que não tinha onde cair morta e que vivia de favores era fazer de boa vontade e da melhor maneira possível o que lhe fora pedido pelas pessoas que cuidavam dela. Ingratidão era a única recompensa para a caridade! E foi limpando diariamente as janelas que Sofia passou a prestar atenção a um outro morador da casa, que raramente via.
Este era um senhor já velho, cabelos brancos, sobrancelhas brancas, bigode branco e até pêlos do braço brancos. Ele passava o dia todo fechado na biblioteca, lendo. Ele era, em realidade, o verdadeiro dono da casa, sogro da tutora de Sofia. Mas não gostava de ficar com a família, nem mesmo com as netas, que achava muito mimadas. Assim, todos tinham ordem de não entrar na biblioteca por nada, em tempo algum. Ali era local proibido para todo mundo e exclusivo do velho, que até tinha um divã lá para dormir, quando não quisesse ir para o quarto. Só saía da biblioteca para comer, tomar banho e, às vezes, ir dormir em seu quarto, momento em que uma empregada entrava para tirar o pó dos móveis e livros, e passar aspirador de pó, rapidamente, antes que o velho voltasse.
Sofia passou a prestar atenção no velho e todos os dias ficava mais tempo limpando a janela da biblioteca do que as demais. No entanto, porque as filhas de sua tutora não tinham acesso a este cômodo, era a única janela que não precisava de limpeza constante. O velho estava sempre sentado numa grande e aparentemente confortável poltrona com um livro nas mãos, lendo com muito interesse e, ao que parece, nem percebendo que havia alguém à janela, observando-o.
E Sofia, dia após dia, notava as expressões no rosto do velho, que se alteravam conforme as capas dos livros também se alteravam. Havia dias em que ele parecia muito pensativo, largando por vezes o livro e olhando para o teto como se ali não houvesse teto algum. Em outros, sua expressão era de alegria e não raro soltava uma risada alta e forte que assustava Sofia. Houve dias em que a expressão era de dor e Sofia via um brilho mais intenso em seus olhos, como se lágrimas quisessem descer daquelas vistas tão antigas. Mas daqueles olhos tão antigos, que geralmente transmitiam, à sua observadora, algo positivo — para não dizer bondade —, muitas vezes saíam expressões de ódio ou indignação, sempre através da leitura. Como era possível aqueles livros mexerem tanto com uma pessoa, fazê-la sentir tantas emoções sem sair daquela poltrona?!
Sofia, na escola, já tinha lido alguns livros, mas nunca tinha gostado muito deles. Eram chatos, cansativos, davam sono, eram difíceis de entender. Quando tinha que ler um livro, o que mais gostava era das atividades que a professora dava acompanhando a leitura. Ela participava de tudo com a maior alegria e boa vontade, mas, quando voltava pro livro, ai, que chatice! Por que nunca tinha se sentido como o velho da biblioteca? Por que nunca ria ou chorava quando estava lendo um livro? Será que ela é que tinha algum problema? Será que aquele velho solitário é que tinha um problema? Será que o problema estava na forma como a leitura era feita na escola? Ou será que estava no livro escolhido?