CAPÍTULO 3

Houve uma manhã em que Sofia, após limpar rapidamente as demais janelas da casa, correu para a sua janela preferida e, para surpresa sua, não encontrou o velho sentado na poltrona. Colando bem o rosto no vidro, procurou por ele em toda a biblioteca, sem sucesso. Por sua mente passaram mil pensamentos, entre eles doença, viagem, mudança e mesmo morte. Não, morte não, meu Deus, já chega a morte da mamãe! O que teria acontecido? Sofia sentiu uma apreensão crescendo dentro de si e já se preparava para correr à cozinha para ter notícias de seu velhinho, quando uma voz grave atrás de si fê-la voltar, assustada:
— Você está procurando alguém, menina?
Quando ela percebeu quem era, ficou até sem fala. À sua frente, sorrindo como nenhum dos donos daquela casa jamais sorrira para ela, estava o velho conhecido. Sofia gaguejou algumas palavras, negativas e justificativas que pareciam divertir o velho. Vendo-a tão constrangida, ele resolveu falar com ela para que ela não precisasse fazê-lo e, assim, parasse de gaguejar.
— Não precisa explicar nada, meu bem!
“Meu bem”? Ela tinha escutado direito? Ele a havia chamado de “meu bem”? Seria possível? Será que ele não a havia xingado com um palavrão que ela não conhecia e que tinha entendido como “meu bem”? A expressão de surpresa e dúvida no rosto de Sofia era tão grande, que não passou despercebida pelo velho, que quis saber de onde provinha.
— Aconteceu alguma coisa, meu anjo? Por que esta expressão em seu rosto? Você parece assustada. Não está com medo de mim, não é mesmo?!
“Meu anjo”! Ele tinha chamado Sofia de “meu anjo”, como só sua mãe a chamava, e com um tom de voz vazando tanto carinho como o de sua mãe. Só podia ser sonho!
— Não aconteceu nada, não senhor! — conseguiu dizer Sofia a muito custo.
— Você é Sofia, não é mesmo?
— Sim, senhor. O senhor me conhece?
— É claro que sim, meu bem! Já ouvi falar muito de você à mesa de jantar e, pelo que sei, você não parece ser muito bem tratada nesta casa, apesar de quase fazer parte da família, ao menos perante a lei. Além do mais, sempre vejo você limpando a janela sem sujeira da minha biblioteca e me observando. Ao ouvir essas palavras, Sofia corou até não poder mais. Ficou realmente encabulada, já que pensava que o velho jamais tivesse prestado atenção a ela ali na janela, fazendo o seu serviço. Mais uma vez tentou se justificar e gaguejou mais do que antes, divertindo ainda mais o velho.
— Não precisa ficar com vergonha, Sofia! Eu sei que você não sabia que eu a estava vendo, mas eu vi você todos os dias e, se quer saber, sempre gostei de vê-la me observando. Parece que você se interessava pelo que eu estava lendo, não é verdade?!
Sofia balançou afirmativamente a cabeça.
— É que eu ficava curiosa de saber o que o senhor estava lendo para emocioná-lo tanto. O seu rosto estava diferente cada vez que lia um livro diferente. Eu só li uns poucos livros chatos na escola, e nunca eles me fizeram sentir nada, só sono.
— Talvez você estivesse lendo os livros errados. Nem sempre os professores acertam na escolha dos livros para os seus alunos. Na verdade, nem sempre os professores estão preparados para orientar a leitura de seus alunos. Antes de mais nada, o professor precisa ser um leitor; se ele não tem o hábito de ler, se não tem o amor pela leitura, não vai conseguir fazer com que seus alunos adquiram este hábito, este prazer, porque a leitura é um grande prazer. No dia em que você escolher um livro que a emocione, pode ter a certeza de que quererá outro, e mais outro, e mais outro, sem nunca querer parar de ler. Você vai sentir como a sua própria vida ficará muito mais rica e interessante com a leitura. Para mim, há duas grandes escolas para o ser humano: a vida e a arte, e, pessoalmente, acho a literatura a mais envolvente forma de arte. A cultura de um povo pode ser transmitida através das esculturas, das pinturas, das músicas e, a partir do século XX, dos filmes no cinema. Mas nenhuma dessas artes contribui tanto para o conhecimento do ser humano como a literatura. Ela preserva a língua, os hábitos, os locais, as personalidades, em detalhes que outras artes não conseguem. E, de todas as artes, é ainda a mais simples e barata de se ter acesso. Você não precisa de eletricidade para ter um livro, pois a energia para a leitura vem de você. Não precisa de outras pessoas para fazer o livro funcionar; basta você retirá-lo da estante. Após o livro ser impresso — e para isto sim precisa de outros homens —, o leitor é o único agente que move a leitura desse livro. Se você gosta de pintura ou de escultura, no mais das vezes tem de se contentar em vê-las em museus ou galerias de arte, já que o preço para adquirir uma peça é proibitivo para a maioria das pessoas. O livro, porém, mesmo estando muito caro ultimamente, é acessível à maioria das pessoas. Quem não pode comprar um livro novo, vai a um sebo e compra um usado. Fora o fato de o livro ser muito barato se comparado a tudo o que ele nos oferece em termos de prazer, cultura e lazer. Mas... o que estou fazendo? Devo estar cansando você com essa conversa mole, não é, Sofia? Isso não é conversa para uma jovenzinha como você!
— Não, senhor! Eu estava achando muito interessante o que o senhor dizia. Não entendi tudo, mas achei muito interessante...
O velho riu da ingenuidade da menina, mas sentiu nessa frase e nas observações dela pela janela que talvez ela se interessasse por leitura.
— Sofia, meu bem, você não gostaria de ler algum livro comigo na biblioteca?
Sofia ficou surpresa e entusiasmada com a proposta e já estava pronta a exclamar um “é claro que sim!”, quando se lembrou de suas obrigações. No mesmo instante, a expressão de seu rosto alterou-se para uma profunda frustração.
— O que houve, Sofia? Algum problema? Você não quer ler comigo? Se não quiser, não há problema algum. Eu apenas pensei que você...
A menina interrompeu o velho antes que ele pudesse concluir o que pensava.
— Desculpe, mas não é nada disso. Eu adoraria ficar com o senhor, lendo na biblioteca, mas não posso fazer isso. Eu tenho muito serviço para fazer aqui na casa e a sua nora não vai deixar eu ficar parada lendo. Ela só me deixa parar de noite, na hora de dormir.
— Ora, ora, ora! — exclamou o velho. Então você não tem tempo livre para adquirir cultura, não é mesmo?! Vamos fazer o seguinte: vá trabalhar, que depois eu falo com você de novo, está bem?
Dizendo isso, o velho passou suavemente a mão pelo rosto de Sofia e sorriu-lhe. Sorrindo de volta, a menina respondeu-lhe.
— Está bem!
E, antes de afastar-se, voltou-se novamente para o velho e disse-lhe:
— Muito obrigada!
— Obrigado de quê, meu bem?
A menina não respondeu. Apenas sorriu mais uma vez e foi trabalhar.