— Sofia, venha cá!
A voz da tutora não era das melhores. Sofia ficou a imaginar o que teria feito de errado para irritá-la e não se lembrou de nada. Mas não demorou muito a descobrir o que ela queria.
— Eu não sei o que você andou fazendo ou dizendo para o meu sogro, mas o fato é que ele me pediu para liberar você toda tarde para trabalhar com ele na biblioteca. Eu tentei explicar-lhe que você já tem muito serviço e que eu não poderia liberá-la tanto tempo, mas não adiantou nada a minha argumentação. Ele quer assim e ponto final. Portanto, a partir de amanhã, você, depois do almoço, passa a trabalhar com ele na biblioteca.
— Oh, que maravilha, senhora! — exclamou radiante a menina, alegria que irritou profundamente a patroa.
— Mas... — continuou ela, com um leve sorriso maldoso nos lábios —, como eu disse, você tem muito serviço a fazer; portanto, é bom se empenhar muito mais no que faz, pois eu não vou dispensá-la de nada. O que você fazia o dia todo, agora terá de fazer só pela manhã, está me ouvindo? Nem que tenha de levantar mais cedo. Se você não conseguir fazer tudo — muito bem feito e não de qualquer jeito —, falo com meu marido e acabo em três tempos com essa besteira de trabalhar na biblioteca, compreendeu? E não quero ouvir um pio a respeito desta nossa conversa, principalmente com meu sogro, senão...
— Sim, senhora! Não se preocupe, que não vou dizer nada.
— Muito bem! Pode ir agora fazer o seu serviço.
Sofia estava saindo da sala, quando a tutora chamou-a de volta.
— Sofia, você não se esqueceu de nada?
A menina fez cara de quem não entendeu e procurou à volta a ver se via algo que tivesse esquecido ou que estivesse fora do lugar.
— Você não me agradeceu, Sofia!
— Agradecer?!
A exclamação de Sofia deixou a tutora vermelha de ódio. Ela ergueu a voz, quase gritando.
— É, agradecer, sim! Sua má agradecida! Eu estou fazendo a gentileza de deixá-la livre à tarde para fazer sei lá o quê na biblioteca e você não presta nem para me agradecer. Ingrata! Miserável criatura!
— Desculpe-me, senhora! Eu não tive essa intenção. Desculpe! E muito obrigada por sua gentileza.
— E agora, fora daqui, antes que eu me arrependa de ser tão boa. Anda, fora!
Sofia não esperou mais nenhum segundo, saindo correndo da sala.