Enquanto a festa corria solta para a alegria da anfitriã, esperança das jovens solteiras e de seus pais e angústia de Sócrates, Sofia, na cozinha, lavava as louças junto com duas auxiliares. A velha governanta, responsável por fazer cumprir as vontades e ordens da patroa junto aos empregados, aproximou-se discretamente de Sofia e disse-lhe ao ouvido: "Deixe esta louça aí e vá até a biblioteca, que o patrão quer falar com você!”
Um sorriso de benevolência e incentivo estampou-se no rosto da velha senhora, que sempre tratara Sofia com carinho, desde que a conhecera ainda pequenina.
Procurando não ser vista, Sofia esgueirou-se até a biblioteca, encontrando Vovô, como sempre, sentado em sua poltrona, lendo. Sofia ficou ali na sua frente parada algum tempo, até que ele a olhou por cima dos óculos e sorriu.
— Ah, minha querida, você já está aqui” — disse-lhe ele.
— Sim, Vovô, a governanta disse que o senhor desejava me ver.
— É verdade, minha filha! Preciso que você me faça um favor e salve uma pessoa.
Sofia franziu a testa, demonstrando não ter entendido o que Vovô pedira. Após alguns instantes de silêncio, com Vovô olhando-a, ele voltou a falar.
— Você sabe para quem está sendo oferecida esta festa, não sabe, Sofia?
— Sim, Vovô, o senhor me disse que era para o neto de um amigo seu que voltou ao Brasil.
— Isso mesmo, querida. O avô desse rapaz foi um homem muito inteligente, que passou muito de sua educação e de sua cultura para o neto. Eu só o conheci pelas cartas que seu finado avô me escrevia regularmente, nas quais partilhávamos nossas vidas. Esse jovem que está aí na sala não é um jovem qualquer, como os jovens de hoje. Ele foi lentamente preparado pelo avô para assumir a direção de suas empresas, mas também para ser um patrono das artes e da cultura. Possui uma cultura acima da média e, com certeza, incompatível com a mediocridade das pessoas que estão lotando esta casa hoje, a começar pelas minhas netas. Preciso que você vá salvá-lo da situação constrangedora em que sei que ele se encontra.
Franzindo ainda mais a testa, Sofia exclamou:
— Eu, Vovô?! Como posso salvá-lo dessa gente?! O que o senhor deseja que eu faça?! Ajudá-lo a fugir da festa pelas portas do fundo?!
Vovô deu uma gostosa gargalhada ao ouvir Sofia.
— Não seria uma má idéia, Sofia, mas isso causaria um escândalo muito grande e, além disso, ele não seria capaz de uma grosseria tão grande. Mas seria uma idéia bem interessante!
E voltou a rir gostosamente.
— E então, Vovô, o que devo fazer? Como salvá-lo?!
— Só preciso que você vá até ele e... converse! O coração de Sofia bateu descompassado, fazendo-a até ficar sem fôlego.
Assim que pôde, exclamou:
— Vovô?! Eu?! Como posso...?! Eu não...!! Olhe pra mim...!!!
Vovô, vendo-a sem palavras, tranqüilizou-a.
— Não se preocupe, minha filha. Já providenciei tudo.
Pegou no telefone, ligou para um dos ramais da casa e disse:
— Podem vir. Ela está pronta!