CAPÍTULO 14

No dia seguinte à festa, um jornal local estamparia uma notícia de primeira página com foto, dizendo que a festa da noite anterior havia sido a mais espetacular já acontecida na cidade em todos os tempos. Realmente, tudo o que se pode se chamar de luxo — e com certeza muito de brega, quando se exagera no luxo (naturalmente esse comentário não fora feito pelo repórter, caso contrário perderia o emprego no mesmo dia!) — estava presente na festa, a começar pela decoração abundante em flores e brilhos, pelas luzes, pelas roupas dos convidados, pela riqueza de iguarias e bebidas das mais finas qualidades servidas por um número de criados como nunca se vira naquelas bandas, pelos carros que chegavam, quase sempre conduzidos por motoristas uniformizados, pela quantidade de flashs das câmeras fotográficas, que registravam cada momento dos convidados, dos mais elegantes aos mais constrangedores.
O convidado de honra, chamado Sócrates, chegou quando a festa estava já pela metade, acompanhado por seus pais, visivelmente enfadado com a homenagem.
Cada mãe de filha solteira procurou apresentar (ou seria melhor dizer empurrar) sua filha, acompanhada de uma lista de qualidades que a garota tinha e que a fazia o melhor partido da cidade.
Por ser a dona da casa e a organizadora da festa, a tutora de Sofia deu seu jeitinho e retirou o rapaz para uma sala mais íntima, onde ele pudesse conhecer melhor suas filhas e fugir ao assédio daquelas meninas oferecidas e vulgares.
Devidamente apresentados, o primeiro comentário que as filhas fizeram foi quanto ao nome do rapaz. “Sócrates! Se não me engano é o nome de um artista!”, disse uma das irmãs. “Não, maninha, é o nome de um jogador de futebol que virou médico!”, replicou a outra. E riram escandalosamente do equívoco.
Um leve arquear dos lábios tentando aparentar um sorriso foi a expressão vista no rosto do rapaz, que por dentro se lamuriava por ter de estar ali, onde já ouvira uma dezena de vezes perguntarem-lhe se seu nome era em homenagem ao jogador. Por dentro, perguntava-se: “Ninguém lê nesta cidade?! Ninguém tem algo inteligente a dizer ou algum assunto interessante a conversar?!”